Do direito de ser Gente.

A familia Waldner é um batalhão de meninas. São cinco irmãs. Todas extremamente faladeiras, sorridentes  e despachadas feito a mãe de sangue alemão. O pai da familia é moreno, gentil e silencioso. Dos seis filhos só o rapaz puxou a verve silenciosa do pai. A unica das irmãs  que involuntariamente puxou a quietude do pai foi a filha mais nova. Uma subita falta de oxigênio no cerebro durante o parto condenou  Teresa  a uma cadeira de rodas e a graves problemas neurologicas que a impedem de caminhar ou falar. Teresa se tornou morena, sorridente e silenciosa. Balbuciona umas cinco ou seis palavras. Não tem coordenação motora sequer pra se comunicar por sinais. Um dos momentos mais arrepiantes que eu presenciei foi a  festa de debutante de Teresa. Ela entrou no salão vestida de princesa. Numa reluzente cadeira de rodas toda enfeitada de rosa, cercada de outras crianças deficientes feito ela. Não teve quem não chorasse quando aquele amoroso e terno pai rodopiou a filha na cadeira de rodas na primeira valsa. Ela dava sonoras gargalhadas. Quis dançar com o irmão. Com os tios. Com os primos. O pai tinha feito o mesmo no baile pras outras irmãs. Não achou nenhuma boa razão pra nao fazer o mesmo com a caçula. Que importância tinha se  debaixo daquele lindo vestido a mocinha em questão tivesse usando uma fralda geriatrica ?

A  familia Waldner nunca escondeu Teresa. Ela foi dama de honra de todos os irmãos. Esteve em todos os casamentos. Foi em todas as formaturas. Esta em todos os albuns. Tem fotos com todos os sobrinhos. As duas irmãs mais novas a arrastavam pro cinema, pro boliche. Ela só nao ia pra praia pq DETESTA água.

A casa vivia cheia de rapazes interessados em descolar algo com uma das fascinantes irmãs. Nenhuma delas permitia da parte dos pretendentes a menor piadinha, a menor gracinha que fosse em relação a Teresa. Era muito comum um dos sujeitos torcer o nariz pra levar teresa em algum lugar e por tabela perder qualquer chance que fosse com a Waldner em questão.

Não há um futuro proximo onde Teresa seja vista  por todo mundo como é vista pela familia, longe de casa, longe daqueles que a protegem ela é vista não como uma pessoa. Mais como uma deficiente fisica incapaz  é invalida.

Mas o amor e o carinho da familia nao fez bem unicamente a ela. Todos as pessoa proximas daquela familia aprenderam a conviver com o diferente. A sentir sua falta nos eventos onde ela nao aparecia: ” cade teresa ?”

Com o tempo percebiamos que Teresa era bem malandra. Que ela não gostava de acordar cedo. Que ela preferia mais a companhia do irmão e que não tinha muita paciência pra gente que insistia em por fitas no seu cabelo.

Que ela era uma menina se tornando moça. Com tudo de bom e de ruim que isso contempla. Como qualquer  das irmãs.

Enfim. Uma pessoa. Não uma deficiente. Não um gay. Não uma lesbica. Uma pessoa.

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16 comments on “Do direito de ser Gente.

  1. Acredito nisto: o invólucro de uma pessoa é coisa secundária (sexo, cor, classe social,aparência). O que importa é o conteúdo. O recheio que a pessoa tem. Gente é gente e, como diz a música, gente é pra brilhar!

  2. Não consigo entender o porque do “tratamento diferenciado”, da exclusão, da indiferença.

    Sei bem como é esse preconceito. Ao ler este texto não pude pensar, durante cada palavra, do meu primo. Nasceu sem nenhuma deficiência, mas contraiu meningite no hospital, ainda bebê, e isso deixou seqüelas.

    Hoje, ele está com 29 anos, mas tem a mentalidade de uma criança de +/- 10/11 anos. Mas ele estuda, ajuda em casa, vai e volta do ponto do ônibus sozinho, lê várias palavras, tem uma memória incrível. Brinco que ele é nossa agenda de aniversários, pois ele guarda a data de todos, e faz questão de visitar-nos no aniversário.

    É ele que nos recebe quando viajamos, ele quem nos liga para saber se estamos bem.

    Ele é nosso xodó, e a sociedade é muito imcompreensiva, ele, os pais e irmãos já passaram por situações constrangedoras, onde pessoas não conseguiam enxergar que as ações dele são totalmente desprovida de maldades, e com excesso de carinho.

    A esperança é que a sociedade deixe de ser míope e olhem para o ser humano, e não para a deficiência.

  3. Lindo texto…sei que ainda vai longe os rótulos que as pessoas aplicam ao diferente…mas um dia,e eu realmente acredito nisso,as pessoas serão simplesmente pessoas,não importando cor, credo,orientação sexual ou escolha qualquer. Neste dia moraremos no País do respeito,na terra da amizade em companhia frequente da tolerância…um dia… Belo texto! Cheiros! Vivi Oliveira.

  4. Parabens, André, pelo texto…. muito bem expressado…

    Teresa é, com certeza, uma pessoa muito especial…

    Eu acredito que devemos amar as pessoas do seu jeito, não importa a forma… aceitar como as pessoas são, já é a verdadeira forma de se amar… destrói preconceitos e aproxima cada ser humano…

  5. Amar seus iguais é sempre mais fácil do que amar os diferentes. Por isso, quem transcende esse amor e vê beleza além da casca, aprende a ser uma pessoa melhor. Tenho certeza que Teresa é muito mais feliz do que quem lhe aponta o dedo ou não compreende o amor que os seus têm por ela. Felizes daqueles que têm a honra de conviver com Teresas. E que enxergam pessoas e não rótulos, como alguém já disse aqui em cima. Lindo texto, querido. Você sempre consegue emocionar.

    Beijos!

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