A vida não tão cor de rosa.

 

B. era nosso vizinho. Uma das tias dele era minha colega de classe.  Ele foi criado pela avô. junto com o tio que era um ano mais novo que ele.  Ele e o tio eram da turminha do meu irmão mais novo. Eu  vi o B. crescer. E ele sempre foi delicado sabe ? com 7 anos ele ja se referia a si mesmo e a tia como ” nós duas ”  E ele tinha um irmão mais velho e esse tio. Mas ele gostava mesmo era de pentear as bonecas da tia.  E a tia era a filha caçula de uma IMENSA familia que só tinha mulheres muito mais velhas que ela. Então a companhia constante dela era o B. Que estava sempre na sombra dela.  Ele cresceu. Sempre feminino. Sempre delicado. Sempre ambíguo. E pra surpresa de absolutamente ninguém passou a andar com o único outro gay do nosso minúsculo bairro.  Dai o Zé Gay [ como até hoje ele é chamado no bairro ] passou a ter  o B.  como companhia.  Pra horror de todo mundo. por que se antes o B. só era um menino esquisito é isolado  ainda era admitido na turma. Depois disso ele virou paria social. Tal qual o Zé Gay. Dai os moleques que viviam na casa dele filando bolinhos de chuva que a avó dele fazia e distribuia pra todo mundo passaram a hostiliza-lo e a persegui-lo.

O tio é o irmão nada faziam.  E o B. solitário, amargurado e perdido [ a avó dele era uma pessoa incrivelmente boa. mas era obreira da igreja DEUS É AMOR. sente o drama. ] se afundou nas drogas e  passou a se transvestir e acabou sendo preso por prostituição num posto de gasolina.

Eu não sei o que aconteceu com ele. A familia dele se mudou pra outro lugar.E eu nunca mais tive noticias.

O que ficou pra mim foram duas coisas distintas dolorosas e muito esclarecedoras sobre como o preconceito pode marcar pra sempre uma pessoa.

 

A lembrança mais remota que eu tenho do B. e dele bem pequeno, feliz e sorridente distribuindo pras outras crianças uma sacola de cajás maduros  que havia ganho de uma vizinha. Quando chegou a minha vez restavam dois. Um maior e um pequeno. Ele disse que os dois eram meus. mas o maior eu deveria dar pro meu irmao menor. Desconfiado das minhas intenções ele disse que iria perguntar pro meu irmão na sala de aula no dia seguinte se eu tinha realmente dado o cajá pra ele.

A última lembrança acho que foi a ultima vez que  o vi. Eu tinha ido com os meus irmãos numa festa. Num outro bairro. De longe vimos duas pessoas que pareciam ser mulheres. Era o B. e o Zé Gay travestidos.  O B. nos viu e alegremente nos acenou. Nenhum de nós retribuiu o aceno. Ele abaixou a cabeça  e mudou de calçada.

Anúncios

6 comments on “A vida não tão cor de rosa.

  1. Ai, que doído, André. Me lembrou o Fábio Bicha (pois assim que ficou conhecido) na minha cidadezinha odiada. Ruivíssimo e meu melhor amigo do jardim ao 2º ano, até ele mudar de escola. Passei umas tardes na casa dele, com a babá (a família dele tinha alguma grana); daí ele pegava as camisoladas da mãe, transparentes, coloridas, e ficávamos dançando na frente do espelho. Com uns 18 anos o revi, travestido, mas cercado de amigas do bairro rico, cabelos compridos, parecia a Claudia Raia. Não nos acenamos, mutuamente. Morreu de Aids com 20 e poucos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s