Fabinho

Eu não gosto de crianças. Quem as inventou esqueceu uns acessórios básicos como teclas MUTE e ESTATICO que tornariam a convivência com elas menos traumáticas. Também não tem SAC e nem um manual de instruções acoplado. Não tinha como dar certo. Mas Deu.

Então que eu tinha 19 anos e tava numas de salvar o mundo. E dai eu fui fazer trabalho voluntário.

Dai eu parei numa casa que acolhia crianças aidéticas e com câncer. Um das crianças era uma menina aidética de 04 anos. A mãe, uma prostituta, havia envolvido o corpo da menina numa esteira jogou gasolina e ateou fogo. A menina foi salva, mas perdeu uma das pernas devido as horríveis queimaduras. Já deu pra ver que era duríssimo o negocio.

Eu passava 04 horas, todos os sábados brincando com as crianças. A gente não podia pegá-los no colo, pois eles ficavam chorando depois que a gente saia. Havia um menino que tinha um tipo de câncer no sangue ou nos ossos. Eu tentava me blindar ao máximo, e dai eu não entrava muito nos detalhes do porque cada criança havia parado ali. Sempre eram historias horríveis como a da pequena Laís e suas queimaduras. Ele era pele e osso, as vezes só conseguia se alimentar com sonda. E eu nunca vi uma criança mais gentil e amorosa que aquela. Eu me ajoelhava no chão e ele envolvia o meu tronco com as pernas e os braços. E ficava duas, três horas agarrado em mim.

Depois de um desses abraços o Fabinho me disse que adorava quando eu ia lá. Eu perguntei porque:

– o seu coração bate tão devagarzinho quanto o meu, o coração dos outros bate muito depressa.

Ele ficava ouvindo o coração das pessoas. Era a forma que ele tinha de não se sentir sozinho. As outras pessoas estavam sempre com pressa e agitadas. Eu não. Sempre ficava muito em paz ao estar com ele. Por isso meu coração batia mais devagar. Ao ritmo do dele.

Eu não tive coragem de voltar na casa. Porque não teria coragem de largar o Fabinho naquele lugar novamente. Continuei [ continuo na verdade ] fazendo trabalhos voluntários, sabendo que havia um limite que eu poderia suportar e fazer.

Eu não pensava em nada enquanto recebia o abraço do Fabinho. Só gostava da sensação de fornecer um pouco de calor e proteção aquele criaturinha tão silenciosa e frágil. Eu sei que sou um covarde pois nunca tive coragem de olhar o Fabinho dentro dos olhos muito tempo. Por que era avassalador contemplar o peso do universo que aquela criança carregava.

Sei o que fiz por ele foi muito pouco. Nada na verdade. Mas dentro de mim eu tenho a convicção que mesmo por alguns momentos o Fabinho pode se sentir total e plenamente amado. Mesmo por uns minutos que fossem ele pode se sentir tocado por essa sensação de segurança e conforto que é ser amado totalmente.

E isso fez a diferença. Pra mim. E pra ele.

Amar faz diferença Tina. Sempre faz.

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6 comments on “Fabinho

  1. Mas você ama incondicionalmente, meu querido, o que te faz senão único, raro. Meu post é especificamente sobre voluntariado dentro de escolas e orfanatos, sou contra, acho que são instituições que devem ter seu próprio corpo funcional valorizado- cuidadores, mães provisórias, educadores, professores, atendentes, enfermeiros – porque tem funções específicas que, bem realizadas, podem tornar esses lugares lares, refúgios. Principalmente porque não há muitos outros como você.

    • Eu entendi o seu ponto. Isso seria o ideal. mas nao acontece. Essas crianças precisam de algo agora. Por pouco que seja. Eu ainda acho que dá tempo de salvar o mundo. Veja como eu sou trouxa.

  2. Também quero me meter nessa conversa…. Eu acompanhava uma familia pela Pastoral da Criança, pra resumir, a mãe deixou o bebê de 2 meses no hospital e, com medo de que o Conselho Tutelar pegasse os outros 2, sumiu… Mandou um recado pra mim, fiquei 2 dias no hospital mas o Conselho T. foi acionado e depois da alta o David foi para o abrigo. Eu não posso visitá-lo, choro cada vez q penso, sou a única pessoa que sabe alguma história sobre a mãe e os irmãos dele, mas a assitente social disse que o juiz não dá autorização, ele acha que as crianças não devem se apegar a estranhos porque será mais difícil aceitarem uma família quando forem adotadas. Nunca vou entender isso….

    Mais uma vez concordo totalmente com vc André, essas crianças precisam de amor agora! Muitas nem serão adotadas…

  3. Você tem razão quando disse: “Eu sei que não fiz muito por ele. Nada, na verdade”.

    Você fez esse post achando q todo mundo ia te achar gracinha e etc.

    Primeiro que eu duvido muito de toda essa historinha contada nesse post pq CARIDADE q é feita de verdade, com coração, não é CONTADA, ESPALHADA. Isso é ação do EGO. E caridade não pode vir do ego. Tem que ser altruísta.

    Segundo que, ainda que seja verdade, VOC~E NÃO FEZ NADA PARA AQUELAS CRIANÇAS! MUITO MENOS PRO ‘FABINHO’. Pelo contrário, você fez muito mal a ele…. Deixou ele se apegar a você e depois SUMIU.

    Já parou pra pensar o QUANTO ele sofreu qndo vc parou de ir la? E q ele deve pensar nisso ate hj?
    Vc nunca deve ter sido abandonado ou algo assim… POR ISSO não sabe a dor de as pessoas sumirem da sua vida, desistirem de você! Pra uma criança então, isso é a morte. Elas não conseguem entender porque foram abandonadas. Porque vc “não as ama mais”.

    Já leu O Pequeno Príncipe? Contém em seu texto uma das frases mais duras e reais, mas que QUASE NINGUÉM leva pra vida: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”…

    Vc cativou e abandonou….

    Te garanto que ele tá sofrendo ATÉ HOJE.

    Espero que essa historinha não seja verdadeira (acho q nao é)

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