Da cabeça raspada.

Eu tinha 17  anos.  Já sabia que era gay. E eu tava só no inicio daquele longo pesadelo que me custaria um bom par de anos e muita amargura pra superar.

Dai eu fui com o meu pai e o meu irmão pra uma cidade no interior do interior do interior  das serras capixabas.

Eu tava deixando os meus cabelos cresceram. E o meu cabelo é castanho claro, e dai com o sol ele sempre fica com as pontas aloiradas [ a minha bisavó veio da Alemanha ].

Dai a piada do fim de semana foi que um dos rapazes da fazenda achou que eu fosse uma menina. E todo mundo ria. E eu morria por dentro.

Não tive forças pra reagir. Pra brigar. Nada. Eu só sentava no canto e tinha vontade de desaparecer.

O meu irmão fazia coro as piadas. E o meu pai disse que a culpa era minha. Pior, eu me sentia culpado de fato pelo ocorrido. Ria sem graça, envergonhado e embaraçado enquanto era ofendido de todas as formas possiveis.

Dai que eu não acho que ninguém seja  “gay encubado”  porque quer.  Eu acho que a gente vive numa sociedade onde ser gay é um problema. E todo gay precisa tomar uma decisão de como vai agir diante deste “problema”.

Sempre tem gente que alega que  “ mas eu me assumi como gay sem o menor problema”  dai tem um erro nesse seu pensamento. Por que você não é todo mundo.  E talvez você se saísse bem sendo bombardeado um final de semana inteiro por conta do seu cabelo de  “ puta barata”. Pra mim foi humilhante, constrangedor e horrível.  Por que eu estava com a minha família e no meio de “amigos” então por que morrer era tão convidativo naquela  circunstancia?

Chegando em casa eu raspei o cabelo.

 

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3 comments on “Da cabeça raspada.

  1. Quero ver o gay que não tenha passado por pelo menos um situação de constrangimento e humilhação como essa. Por mais bem resolvido que seja. E essas pequena ofensas inconscientes ou conscientes, dependendo de onde vem, vão deixando marcas e traumas que duram a vida toda. Falo por mim, por mais que me sinta bem sendo o que sou, as vezes, quando surge uma piadinha ou deboche, por mais que não seja direcionada a mim, bate aquele sentimento “sou um erro, sou inferior, estou no lugar errado, no mundo errado, não me encaixo aqui, com essas pessoas. Onde pertenço?” Na hora, posso até fingir que não senti e que não pensei, mas debaixo da superficie, tudo isso continua lá. E de quem é a culpa? De quem fez a piadinha naquela hora ou da sociedade que durante toda a minha vida esfregou na minha cara que meu lugar não é aqui?

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