O menino, o homem e o saco.

ImagemAgora eu sou garçom num bar. E esse bar serve porções. E como é um bar de rua tem muitos moradores de rua, drogados e pessoas pedindo coisas o tempo inteiro. E tem esse menino que eu já percebia antes de trabalhar nesse bar. Ele é viciado em crack. Negro. Sujo. Desbocado. Mas nos dias de chuva quando eu o encontro pelas marquises eu só vejo um menino perdido, de olhar triste e desemparado. Todas as pessoas do bar tem medo desse menino. E teve um dia que uma mesa inteira de marmanjos saiu correndo atrás dele. Ele ficou dias e dias sumido. E ele xinga as pessoas e chuta os carros que passam devagar na faixa. Esse dia que eu vou contar não era de chuva. Mas ele parecia o menino dos dias de chuva: perdido, de olhar triste e desamparado. Era um dia de jogo de futebol na TV. E ele ficou num canto vendo o jogo com as pernas enfiadas dentro da camisa. Dai eu levei dois salgados pra ele comer. E depois levei mais coisas. Já era quase hora de fechar. E um cliente não quis comer um file com fritas porque tinha que ir pra não sei onde. O file ficou intacto na mesa. E eu chamei o menino pra comer. Ele começou a enfiar tudo dentro da boca em pé. Eu mandei sentar, comer com calma e me devolver os talheres depois. Ele me olhou do mesmo jeito que um cachorro de rua olha pra alguém que lhe joga um osso. Com aquele medo de ser um truque e ao pegar o osso ele ganhar um chute em vez de um afago. Dai ele sentou e começou a comer. E eu voltei pra dentro do bar. Sai logo em seguida e ele já estava voltando [a mesa era afastada] olhei e tinha um homem sentado no lugar dele comendo. Imaginei que o homem [um mendigo pelas roupas] tivesse brigado com ele pra ficar com a comida. Fui até lá pra expulsar o homem pra deixar o menino comer. Dai o menino me entregou os talheres, me agradeceu. Mas havia deixado o homem [era um morador de rua] comer porque o homem estava com mais fome do que ele. Ele já havia comido os salgados. E foi embora.

 

Eu fiquei perplexo.

 

Porque me dei conta que aquele senhor esteve ao lado daquela mesa a maior parte da noite. E eu não havia percebido. Passei por ele e por seu saco de roupas inúmeras vezes servindo as mesas. Mas nem ele, nem o saco, nem sua fome ficaram retidos na minha memória.

 

Dai eu cheguei em casa com esse gosto amargo na boca. No nada que eu fiz pelo menino [dar restos de pratos alheios] e no grande soco que ele me deu ao me mostrar que tem coisas [um homem adulto, com seu saco de misérias, fome e infelicidade] que eu ainda não sou capaz de enxergar.  

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