Altair e Edson

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Dai que depois desse dia do jogo eu encontrei novamente o menino. E ele fez algo surpreendente. Ele veio em minha direção e me abraçou. E eu fiquei desconcertado porque ele estava sujo e fedia muito. E a minha primeira reação foi evitar o contato. E a reação seguinte foi ficar atento pra ele não roubar nada dos meus bolsos. Mas ele só queria isso. Me abraçar e me desejar um bom dia de trabalho. Eu perguntei o nome dele: Edson. Ele sorriu e foi embora. E eu só fiquei triste. Porque ele tem um sorriso tão bonito apesar dos dentes destruídos pelo crack.

E tem um outro menino. Um pouco mais velho. Que também é usuário de crack. O nome dele é Altair. E ele é diferente do Edson. Ele ajuda os bares a troco de comida, lava carros, carrega caixas de verduras na feira. Mas mora na rua. Anda tão sujo e maltrapilho feito o Edson e tem os dentes igualmente destruído pelas pedras de crack. É um velho de 25 anos. Mas ainda é um menino porque corre alegre [ provavelmente é efeito do crack ] pra cima e pra baixo chutando poças de água nos dias de chuva.

Na quinta-feira o Altair chegou e começou a juntar as mesas. Me perguntou se tinha algum salgado no balcão. Não tinha. Dai ele pegou uma bandeja com uns restos de comida e veio discretamente e cheio de vergonha me pedir pra por aquilo numa sacola porque ele não tinha comido nada o dia inteiro e estava morto de fome. Eu peguei os restos e entrei na cozinha procurando alguma coisa pra dar ele. Não tinha. Peguei aqueles restos, coloquei dois tomates, uma banana cozida e coloquei um pouco de arroz numa sacola. Era tudo o que tinha. Entreguei e ele foi embora. Dai eu me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Porque me esqueci de colocar a comida num marmitex. E dei pra ele a comida no mesmo tipo de sacola que eu tinha jogado fora mais cedo quase três quilos de comida que havia sobrado na cozinha.

No domingo o Edson apareceu. Acenou de longe me chamando. E eu pedi pra ele esperar. Eu vi que ele estava muito drogado e iria me pedir dinheiro ou bebida. De longe mesmo ele me desejou um bom dia de trabalho e que deus me acompanhasse. Algum tempo depois chegou a notícia que ele tinha apanhado na praça por ter mexido com uma mulher de um cliente do bar. Os clientes bateram nele. Dai eu dei uma volta pela praça tentando encontrá-lo. Não achei. No bar o papo era porque ele não morria.

Hoje o Altair apareceu novamente. Não quis comida. E nem me ajudou no bar. Estava anormalmente quieto e sério. Me contou que o Edson subiu pro morro depois da surra. E mexeu com outra mulher lá em cima. A mulher errada. Muito errada. Cortaram a garganta dele. Ele foi socorrido e levado pro hospital. Mas não resistiu. Faleceu.

Dai o Altair com os enormes olhos negros falou que tem gente muito ruim no mundo. Que ele, o Edson, era drogado sim. Mas um ser humano. E não merecia ser degolado feito um animal.

O Altair foi embora. Ao se despedir ele disse a mesma coisa que foi a última que o Edson me disse: FIQUE COM DEUS.

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2 comments on “Altair e Edson

  1. André, estas histórias difícieis e tristes e seu jeito de contar também me fizeram chorar… Mas seu jeito de receber e oferecer afeto chegou até Edson e Altair. Nem sei se acredito mesmo em Deus, mas repito as palavras deles; FIQUE COM DEUS.

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