O tempo passou e eu sofri calado

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Nessas voltas que o mundo dá eu reencontrei o meu primeiro grande amor. Eu não sei se foi nem primeiro e nem sei se foi assim tão grande porque na vida de recusa, negação e provação que eu cresci sendo gay numa família evangélica nenhuma dessas coisas me foi permitido. Então eu já tinha 19 anos quando conheci esse cara. Eu não tinha a menor ideia naquela época que eu já era a pessoa que eu sou hoje: intransigente, critico, libertário, questionador, pensava com a minha própria cabeça, defendia as minhas opiniões bravamente, não ligava pra opinião alheia. Ou seja: eu já era uma pessoa forte. Só que eu não sabia disso. Ninguém nunca tinha me dito que eu era assim e a minha família tinha feito o possível e o impossível pra sufocar tudo isso, pois eles entendiam isso como rebeldia contra a fé cristã (e tinha aquele medo ainda maior de tudo isso ser coisa de viado ).

Enfim.

Na época eu tinha uma necessidade muito grande de agradar, tinha um medo patológico de ser exposto ao ridículo, era uma bomba relógio de raiva e frustração e gaguejava pra caralho. Na época eu precisava lidar com todas essas coisas e com o fato de achar esse cara muito superior a mim: ele era descolado, agradável, popular, assumido, charmoso e bonito pra caralho. Praticamente o Edward Cullen que não brilhava. Claro que deu tudo errado .

Como Emma e Dexter naquele livro Um Dia eu e esse cara fomos nos encontrando ao longo dos anos e a cada ano que passava aquela versão idílica do passado ia ganhando cores novas e não tão bonitas como as memorias e a paixão as vezes pintam na nossa cabeça. Eu era sim uma pessoa muito interessante. E o cara não era lá tão grande coisa como eu pensava. Mas o estrago já estava feito.

Dai duas semanas atrás acho que escrevemos o ultimo capitulo dessa historia. E não é importante como termina. É importante o que eu descobri nessa nossa ultima conversa: Que eu não sei mendigar afeto. E não foi só essa descoberta que é importante. É descobrir que eu não sou capaz de detectar quando esse afeto me é oferecido espontaneamente ou está me sendo dado por suplica, piedade ou condescendência. E na duvida eu sempre recuso. Sempre.

A gente dá o primeiro pass0 e nunca sabe onde isso vai nos levar. Veja que eu já fiz coisas que até Cher duvida na necessidade de ser aceito e agradar. E era o que me deixava sempre com raiva e frustrado: porra, eu to fazendo de tudo e ainda assim não tá bom ? E eu me odiava por isso. As vezes eu acordo no meio da noite com a cara queimando de vergonha por ter me lembrado do tanto que eu me arrastei pelo chão na esperança de ouvir um elogio. Detesto não me sentir a vontade em um lugar, detesto não ser bem vindo, detesto impor a minha presença aos outros. Detesto me sentir um estorvo pras outras pessoas. Tem o probleminha que na minha cabeça isso tem um peso bem maior do que na pratica. Como da vez que eu liguei pra um amigo e me desculpei por estar incomodando e ele me respondeu: “ você me liga duas vezes por ano como que isso é incomodar ? “

Dai eu fico também com esse dever de casa: aprender a fazer essa mediação. Ouvir o que os meus instintos dizem mas também não me fazer de surdo aos outros. Relacionamentos costumam ter via dupla.

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6 comments on “O tempo passou e eu sofri calado

  1. primeiro: adorei que você voltou. adorei a ideia da Tina e que gente como você tenha embarcado. eu preciso muito dos blogs – dos meus e dos alheios, os blogs me fazem um bem danado.

    segundo: você é um forte mesmo. e deve ser bom saber coisas assim sobre si mesmo. e você é um querido. euzinha te quero muito bem.

    e além de forte, sabido. aquele negócio de biscoito de comida chinesa: não é o que nos acontece mas o que fazemos com o que nos acontece… blé algumas vezes não, é o que acontece mesmo que é foda e lindo ou uma merda. mas muitas vezes o biscoitinho tem razão. é o que a gente aprende. o que a gente faz. tipo devorar o biscoito.

    • chorar todo mundo chora né ? mas engole o choro e me conta o que vc aprendeu com essa facada pra eu saber que tem algo melhor do que sangrar. porque né ? como eu sangrei nessa terra puta merda . novidade nenhuma. me diz algo novo. Também te gosto demais. e aceito o seu afeto incondicionalmente.

  2. André, pelo amor de Cher, não fica mais tanto tempo sem postar assim. Vc não sabe o tanto que meu coração pulou quando vi que tinha texto novo seu aqui.
    Seus post são sempre assim, arrebatadores. Não dá pra passar incólume pelo seu blog.
    Beijão.

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