A Chegada

a-chegada

Quem é velho de cadeira sabe que essa onda de filmes de super herói é passageira. È que já teve onda de musical dentro de piscinas e ainda assim o cinema sobreviveu. Mas o fato é que essa onda de filmes de super herói emburreceu e infantilizou demais as plateias. Coloca uma gostosa e um gostoso de collant salvando o mundo que é isso que adolescentes que sofrem bullying na escola querem sonhar. Se você tem a cara cheia de espinhas e usa óculos deve ser legal imaginar que o martelo do Thor é a solução de todos os problemas. Pra quem vive é um problema bem urgente vamos combinar. Nada contra inclusive se o Thor quiser vir me salvar eu vou bem topar.

Mas o cinema ja se ocupou de temas maiores e mais angustiantes que o fato de você ser Boca Virgem ( BV): A solidão humana no universo.

E tem algo ainda mais angustiante que se deparar com a grandeza do universo e o quão sozinhos nós estamos: A morte.

E um tema complicado demais pro Thor e sua plateia. Nem o martelo é capaz de dar conta disso tudo.

A Chegada encara de frente essa batalha. Pega pelo nervo aquilo que mais nos diferencia das outras especies de animais da terra: A linguagem e a memoria. E por tabela também é aquilo que nos diferencia de outros humanos. Nossas memorias são únicas. Podemos viver a mesma vida. Comer a mesma coisa. Pensar a mesma coisa. Mas a memoria nunca é a repetida. A nossa memoria é tão única que ela nem sequer pode ser comunicada de maneira satisfatória como a professora de linguística Louise Banks, interpretada por Amy Adams nos ensina: a língua é capaz de afetar nossos pensamentos.

Falo de memoria porque depois de aprender a linguagem dos ets ( lembrem-se: a linguagem é capaz alterar pensamentos ) a memoria de Louise perde a linearidade com a qual nos acostumamos a pensar e ela tem que mergulhar dentro de si agora com essa memoria que não respeita mais o tempo e o espaço.  Afinal, somos humanos, e a nossa forma de registrar o tempo e o espaço é através de memorias cronológicas. O diretor já estava nos preparando pra essa alteração de sentidos quando encontrou uma maneira muito inusitada de introduzir os humanos dentro da nave alienígena: a noção de espaço de Louise ( e portanto a nossa) é completamente invertida quando ela entra no túnel da nave. Nesse mergulho em si que a protagonista  enfrenta um tema muito caro se faz presente nos primeiros instantes e domina todas as outras percepções: o fim, a morte. Como o filme não segue caminhos óbvios e simplistas não existe propriamente uma pergunta e tampouco uma resposta. Existe a constatação que a nossa percepção é limitada por nossa condição humana. E ao ampliar essa percepção ( passado, presente, futuro todos simultaneamente ) automaticamente deixamos de lado a linearidade das respostas. E isso nos isolaria ainda mais. Ao apliar esse universo de percepções estaríamos fadados a nos isolarmos ainda mais. Porque não haveria mais memorias a serem trocadas e compartilhadas. A percepção humano seria irreversivelmente alterada. Deixaríamos de ser únicos com memorias exclusivas. E ainda assim estaríamos mais sozinhos que antes.

Ou foi isso que eu entendi. hoje.

Amanhã talvez eu pense completamente diferente.

Filme bom é assim. Mexe com as suas certezas e te traz duvidas que você nem sabia que existia.

Talvez o Thor tenha alguma resposta. Eu vou perguntar quando ele vier me salvar.

A Rita e a Luciana também deram seus tostões no assunto.

Anúncios

4 comments on “A Chegada

  1. eu senti o baque no lance dos musicais na piscina. sinto falta deles. vou ficar pensando nisso do isolamento. minha tendência é achar que quanto mais diferentes mais podemos ter pntos de encontros. mais área pra acoplagem. podermos nos compreender tudo de uma vez, ao mesmo tempo, talvez oferecesse uma tolerância a mais pra acolher o outro. ou não, já que ela não partilha a informação com o moço. vou pensar, vou pensar. se você falar com o Thir pergunta se ele me apresenta pra algum amigo herói menos loiro e vitaminado.

  2. queria dizer primeiramente que amo musicais na piscina e amo quando o conflito principal de uma comédia é ser bv.

    depois queria dizer que, posto meu apreço por besteirois, concordo que o cinema atual infantilizou a plateia; essa coisa dos super heróis só me deixou perguntando a mim mesma quantas vezes as pessoas conseguem assistir ao MESMO FILME, gente, são todos iguaizinhos.

    agora queria dizer que leio seu blog há um tempinho mas nunca comento pois tímida. mas eu tb escrevi sobre esse filme e embora eu concorde com tudo que vc expõe, vc vê o filme como uma jornada humana, enquanto eu queria que a coisa se deslocasse da jornada do herói (ou heroína no caso) e causasse aquela comoção nos sentimentos de sacar que o jeito que a gnt vive e nós mesmos somos tão irrelevantes nas nossas próprias jornadas, frente a um universo de coisas que não são medidas pelas nossas experiências. quédizé, vim aqui fazer propaganda do meu posto pq acho que ele dialoga com o seu (e eu tb cito os avengers, serve pra gnt perceber quão enraizados esses filmes tão que a gnt usa imediatamente eles de exemplo)

    (also, vou ler os links recomendamos pois as interpretações desse filme tão me deixando cada vez mais maravilhadas)

    • Bem que a Lu avisou que você tinha escrito um ótimo post.

      Ontem falei algo que já tinha dito pra Lu: que ainda estava no cinema. Fico revendo o filme na minha cabeça. Pra mim o lance da lingua/visão de mundo foi saborosamente explorado, a sacada de atrelar a isso a percepção temporal foi gigante. E a protagonista, né, que encara e abraça tudo. Além de nossa solidão e nossas péssimas escolhas (vamos explodir a nave wtf). Cara, haja mesa de bar pra esse filme.

      Obrigada pela generosidade do link. Meu post nem é exatamente sobre o filme, mas é que eu realmente gostaria de ter falado sobre ele com a pessoa a quem dediquei o post. Quem sabe se eu falasse heptapod? :-*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s