Nós, os aliens.

Publicado: dezembro 2, 2013 em Uncategorized

Apareceu essa semana um apelo sobre um buldog de 7 anos que a família tava doando porque iria se mudar. Assisti hoje o primeiro Alien. A tripulação da nave já foi completamente dizimada, resta apenas a ten Ripley. A nave ira explodir em 10 minutos. A ten. Ripley esta lutando no espaço pra sobreviver. O que ela faz com esses 10 minutos ? sai descabelada procurando pelo único ser alem dela que ainda esta vivo. O gatinho Jonesy. Uma metralhadora numa mão, a caixa com o gato na outra e a Ten. Ripley ainda precisa matar o Alien. Ela não solta o gato. Consegue coloca-lo dentro do modulo de segurança e consegue matar o alien e se salvar. Jonesy a acompanha nos 57 anos de hibernação ate o próximo filme. Essas pessoas que abandonaram o buldog não estavam lutando no espaço pra salvar a propria vida. O único monstro que elas tem que enfrentar é o próprio egoismo e desprezo pela vida de um ser que durante 7 anos não fez outra coisa a não ser lhes dedicar amor e fidelidade. Os humanos são mais perigosos e assassinos do que aliens com acido nas veias.

 

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Feijão Preto.

Publicado: junho 29, 2013 em Uncategorized

Estou fazendo um curso de Garçom. E é num hotel escola referencia na área. Um lugar lindo onde se aprende a servir em restaurantes e hotéis de luxo. E dai eu não deixei de ser eu só porque estou servindo mesa.  E  tem coisas que eu não deixo de reparar. Como hoje. Nossa primeira aula pratica lidando com o publico diretamente. Nesse hotel escola tem uma feijoada tradicionalíssima. Coisa de fina de R$100,00 por cabeça.  O lugar lotado.  Dai uma mesa me chamou. E era uma família bem grande. mãe, pai, avó, avô, netinhos e uma criança deficiente sendo servida por uma babá.  A moça não tava de uniforme branco [ em outras mesas havias babás de uniformes ] e era a unica que não estava comendo ocupada servindo a criança. E era negra.

Dai eu olhei pro salão. E não, não havia nenhuma outra pessoa negra. Puxei pela memoria a mesa do café da manhã e também não me lembrava de ter visto nenhuma pessoa negra. Dai eu olhei para os garçons. Tanto os do hotel quanto os do curso. Do hotel não havia nenhum. Do curso tem um rapaz e uma moça. Curiosamente nem o rapaz e nem a moça estavam no salão, ambos estavam desenvolvendo outras atividades em lugares internos do hotel e da cozinha.

Chega a ser irônico que no dia que é servido um prato que os escravos nos deixaram como uma das maiores heranças e identidade do povo brasileiro os únicos pretos naquele  nobre salão eram a babá e o feijão.

 

Altair e Edson

Publicado: junho 6, 2013 em sociedade
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Dai que depois desse dia do jogo eu encontrei novamente o menino. E ele fez algo surpreendente. Ele veio em minha direção e me abraçou. E eu fiquei desconcertado porque ele estava sujo e fedia muito. E a minha primeira reação foi evitar o contato. E a reação seguinte foi ficar atento pra ele não roubar nada dos meus bolsos. Mas ele só queria isso. Me abraçar e me desejar um bom dia de trabalho. Eu perguntei o nome dele: Edson. Ele sorriu e foi embora. E eu só fiquei triste. Porque ele tem um sorriso tão bonito apesar dos dentes destruídos pelo crack.

E tem um outro menino. Um pouco mais velho. Que também é usuário de crack. O nome dele é Altair. E ele é diferente do Edson. Ele ajuda os bares a troco de comida, lava carros, carrega caixas de verduras na feira. Mas mora na rua. Anda tão sujo e maltrapilho feito o Edson e tem os dentes igualmente destruído pelas pedras de crack. É um velho de 25 anos. Mas ainda é um menino porque corre alegre [ provavelmente é efeito do crack ] pra cima e pra baixo chutando poças de água nos dias de chuva.

Na quinta-feira o Altair chegou e começou a juntar as mesas. Me perguntou se tinha algum salgado no balcão. Não tinha. Dai ele pegou uma bandeja com uns restos de comida e veio discretamente e cheio de vergonha me pedir pra por aquilo numa sacola porque ele não tinha comido nada o dia inteiro e estava morto de fome. Eu peguei os restos e entrei na cozinha procurando alguma coisa pra dar ele. Não tinha. Peguei aqueles restos, coloquei dois tomates, uma banana cozida e coloquei um pouco de arroz numa sacola. Era tudo o que tinha. Entreguei e ele foi embora. Dai eu me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Porque me esqueci de colocar a comida num marmitex. E dei pra ele a comida no mesmo tipo de sacola que eu tinha jogado fora mais cedo quase três quilos de comida que havia sobrado na cozinha.

No domingo o Edson apareceu. Acenou de longe me chamando. E eu pedi pra ele esperar. Eu vi que ele estava muito drogado e iria me pedir dinheiro ou bebida. De longe mesmo ele me desejou um bom dia de trabalho e que deus me acompanhasse. Algum tempo depois chegou a notícia que ele tinha apanhado na praça por ter mexido com uma mulher de um cliente do bar. Os clientes bateram nele. Dai eu dei uma volta pela praça tentando encontrá-lo. Não achei. No bar o papo era porque ele não morria.

Hoje o Altair apareceu novamente. Não quis comida. E nem me ajudou no bar. Estava anormalmente quieto e sério. Me contou que o Edson subiu pro morro depois da surra. E mexeu com outra mulher lá em cima. A mulher errada. Muito errada. Cortaram a garganta dele. Ele foi socorrido e levado pro hospital. Mas não resistiu. Faleceu.

Dai o Altair com os enormes olhos negros falou que tem gente muito ruim no mundo. Que ele, o Edson, era drogado sim. Mas um ser humano. E não merecia ser degolado feito um animal.

O Altair foi embora. Ao se despedir ele disse a mesma coisa que foi a última que o Edson me disse: FIQUE COM DEUS.

O menino, o homem e o saco.

Publicado: maio 31, 2013 em Uncategorized

ImagemAgora eu sou garçom num bar. E esse bar serve porções. E como é um bar de rua tem muitos moradores de rua, drogados e pessoas pedindo coisas o tempo inteiro. E tem esse menino que eu já percebia antes de trabalhar nesse bar. Ele é viciado em crack. Negro. Sujo. Desbocado. Mas nos dias de chuva quando eu o encontro pelas marquises eu só vejo um menino perdido, de olhar triste e desemparado. Todas as pessoas do bar tem medo desse menino. E teve um dia que uma mesa inteira de marmanjos saiu correndo atrás dele. Ele ficou dias e dias sumido. E ele xinga as pessoas e chuta os carros que passam devagar na faixa. Esse dia que eu vou contar não era de chuva. Mas ele parecia o menino dos dias de chuva: perdido, de olhar triste e desamparado. Era um dia de jogo de futebol na TV. E ele ficou num canto vendo o jogo com as pernas enfiadas dentro da camisa. Dai eu levei dois salgados pra ele comer. E depois levei mais coisas. Já era quase hora de fechar. E um cliente não quis comer um file com fritas porque tinha que ir pra não sei onde. O file ficou intacto na mesa. E eu chamei o menino pra comer. Ele começou a enfiar tudo dentro da boca em pé. Eu mandei sentar, comer com calma e me devolver os talheres depois. Ele me olhou do mesmo jeito que um cachorro de rua olha pra alguém que lhe joga um osso. Com aquele medo de ser um truque e ao pegar o osso ele ganhar um chute em vez de um afago. Dai ele sentou e começou a comer. E eu voltei pra dentro do bar. Sai logo em seguida e ele já estava voltando [a mesa era afastada] olhei e tinha um homem sentado no lugar dele comendo. Imaginei que o homem [um mendigo pelas roupas] tivesse brigado com ele pra ficar com a comida. Fui até lá pra expulsar o homem pra deixar o menino comer. Dai o menino me entregou os talheres, me agradeceu. Mas havia deixado o homem [era um morador de rua] comer porque o homem estava com mais fome do que ele. Ele já havia comido os salgados. E foi embora.

 

Eu fiquei perplexo.

 

Porque me dei conta que aquele senhor esteve ao lado daquela mesa a maior parte da noite. E eu não havia percebido. Passei por ele e por seu saco de roupas inúmeras vezes servindo as mesas. Mas nem ele, nem o saco, nem sua fome ficaram retidos na minha memória.

 

Dai eu cheguei em casa com esse gosto amargo na boca. No nada que eu fiz pelo menino [dar restos de pratos alheios] e no grande soco que ele me deu ao me mostrar que tem coisas [um homem adulto, com seu saco de misérias, fome e infelicidade] que eu ainda não sou capaz de enxergar.  

Domésticas, O filme.

Publicado: março 28, 2013 em Uncategorized

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Em uma seleção pra uma vaga em uma loja de departamentos de um shopping center a recrutadora faz perguntas aos participantes da sala. Ao perceber que a maioria diz morar só; espantada 

pergunta: cadê as famílias de vocês ? 

 A indagação dela na verdade era outra: como vocês vão pagar todas as contas de morar sozinhos com o baixo salario que a vaga oferece ?

Corta pra PEC das empregadas. 

Mesmo recebendo os direitos dos demais trabalhadores as empregadas domesticas estão no mesmo patamar dos trabalhos do comercio que recebem em media o piso salarial de R$ 740,00.

Ou Seja. Um salario insuficiente pra prover as necessidades básicas de uma única pessoa que dirá de uma família com 4-5 pessoas. 

Por mais que Danuza Leão e aquela sua tia rica reclamem do absurdo que esta pagar uma domestica hoje, esse salario é insuficiente pra pagar um aluguel [ casa própria ainda é um sonho] energia [ mesmo com Dilma baixando a conta isso ainda custa dinheiro] água [ ela cai do céu mas também é cobrada] gás [ só minha avó que morreu em 2008 ainda cozinhava no fogão á lenha ]  transporte [ duas, três  quatro conduções ]  alimentação [ um quilo de tomate ta custando SETE REAIS ] vestuário [ um tênis barato custa em media R$ 80,00]  lazer [ juro por Deus, pobre também precisa de lazer eu não to inventando ].

Posto isso tenho ouvido muitas reclamações sobre como assim vamos pagar uma empregada domestica sendo que um engenheiro em inicio de carreira ganha tanto e não tem condições de pagar uma empregada domestica nestes termos. 

Se um engenheiro não tem o seu trabalho devidamente valorizado não e pagando menos a empregada que ele vai se valorizar.

E perá lá, só porque o cara é medico, engenheiro ou funcionário da Petrobras ele TEM QUE TER UMA EMPREGADA ?  

e me desculpa mas boa parte das distorções sociais que existe nesse pais vem dai: fulano que trabalha num posto de gasolina tem que ganhar x vezes menos que o contador que tem que ganhar y vezes menos que o engenheiro que tem que ganhar W vezes menos que o medico e assim por diante.

 

Trabalho é trabalho. 

 

 

eu não to dizendo que não deve existir médicos  engenheiros, professores e que eles devem ganhar menos por suas profissões especializadas. A questão não e essa.

 

 

A questão e que boa parte da classe media e elites do brasil manteve e mantem o status quo de suas posições EXPLORANDO  a mão de obra das classes menos abastadas. 

 

A gente vive louvando o primeiro mundo e que la sim e um lugar bom de viver mas convenientemente nos esquecemos que lá todo mundo vive relativamente bem porque as diferenças salariais não são tão absurdas como no brasil. 

 

 

Faça um esforço pra pensar no lado contrario: quem limpa a casa, lava a roupa e cuida dos filhos das pessoas que estão lavando nossas casas, cuidando de nossos filhos ? Porque eles também tem famílias  tem  sonhos, tem dignidade. Enfim. também são pessoas com as mesmas aspirações, capacidades e potencial pra se desenvolver que cada um nós. 

 

 

Agora que as empregadas vão ter os mesmos direitos que todos os outros trabalhadores e quem tinha empregada antes não vai poder ter mais o mercado de trabalho vai ter que se adaptar a essa nova realidade.

 

 

Se não é mais possível pra um engenheiro ter alguém que cuide de seus filhos enquanto ele trabalho o MERCADO  vai ter que se virar pra dar condições pra esse engenheiro ter tempo dele próprio lavar suas cuecas e dar mamadeira pro seu filho.


então os horários de trabalhos terão que ser mudados, as creches terão que ter tempo integral, as escolas terão que funcionar o dia inteiro.

 

a SOCIEDADE ganha com isso. 

 É natural que haja chiadeira e alguns setores mais mais conservadores se sintam agredidos e incomodados ao se verem perdendo um direito praticamente divino de ter alguém pra limpar suas casas.

Nenhuma das conquistas trabalhistas que temos foram adquiridas por bondade e boa vontade dos patroes. Todas as conquistas trabalhistas envolveram greves, rebeliões, caras feias, ameaças e ranger de dentes.

Se não fosse assim os negros estariam ate hoje nas senzalas. PIOR. Estariam pagando aos patroes pra trabalhar e levar chicotadas. 

Uma cor pintada

Publicado: março 7, 2013 em Uncategorized

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Eu não acompanhei as filmagens e nem li na imprensa nada sobre os bastidores e o roteiro de Dezesseis Luas filme adolescente que veio ocupar a vaga deixada pelo fenômeno Crepúsculo. Então eu não posso dizer que papel a atriz Viola Davis [ indicado ao Oscar pelo filme Historias Cruzadas ] teve nas mudanças estruturais dos livros escrito por Kami Garcia e Margareth Stohl para o roteiro escrito por Richard LaGravenese que vemos nas telas do cinema. Fato é que o personagem interpretado por Viola Davis no cinema não tem quase nada do personagem que existe nos livros. Nos quatro livros Amma é uma governanta negra, de meia idade, sulista, praticante de magia que passou metade da vida cuidando da família do adolescente branco protagonista. Tratada quase como se fosse “da família” a personagem é uma emulação da servente negra e cheia de super tições do sul que deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1939 a Hattie Macdaniel pela personagem Mammie de E o Vento Levou. A Amma dos livros carrega nas costas todos os clichês associados as praticas das religiões afro. Ela mora num casebre nos pântanos, vive falando em enigmas e enche a casa dos patroes de patuás, amuletos e poções. Mesmo sendo uma historia “fantasiosa” que trata de bruxas e encantamentos as crenças de Amma são tratadas nos livros como coisas “pitorescas” que não se deve levar a serio. Nos livros a pessoa que dá um verniz de seriedade e autoridade ao assunto é a bibliotecária da cidade Dra Marian Ashcroft uma historiadora de renome companheira de faculdade da mãe do protagonista e uma legitima filha branca do sul. 

No filme a Dra. Ashcroft não existe. Amma é a bibliotecária. Ela é amiga da mãe do protagonista e cuida do rapaz ocasionalmente apenas por afeto. No filme Amma é a guardiã dos segredos dos bruxos da cidade. É uma autoridade consultada e respeitada. Só há uma cena onde Amma entra na cozinha do adolescente protagonista e é pra AJUDA-LO não pra preparar as refeições e limpar a casa como a Amma dos livros vive fazendo. 

Tem também um outro detalhe que é interessante notar. Nos livros existe uma adolescente que faz da vida da bruxinha protagonista um inferno. É uma líder de torcida esnobe que ganhou todos os bailes como rainha da escola. Seu nome é Savannah Snow. Nos livros essa moça é branca. No filme ela é negra. 

E bastante raro a gente ver personagens serem mudados pra passar uma mensagem menos subserviente de negros. É bem mais comum acontecer o contrario. Como aqui no Brasil que o grande artista Tim Maia esta sendo representando numa peça premiadíssima pelo neto do Silvio Santos Tiago Abravanel. Que todos os dias e pintado de chocolate pra mostrar em cena a pele escura do negro Tim Maia.

Corrente

Publicado: fevereiro 18, 2013 em Uncategorized

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Penso eu que talvez a pessoa que mais me ensinou a perdoar foi Amaranta Buendia. Justo ela que nunca perdoou nenhuma ofensa na vida. Justo ela que bordava de dia e desbordava a noite pra que o tempo que lhe foi dado pra tecer a própria mortalha não esgotasse antes de ver Rebecca morrer a minguá.
Pra mim o grande lance foi sacar a inutilidade de todo o rancor e amargura que Amaranta carregou por toda a vida. Ela não conseguiu impedir Rebecca de ser feliz. Não conseguiu amar ninguém. Não conseguiu contaminar Remedios, a Bela com o seu rancor. E o seu ultimo gesto de levar uma caixa de recados dos vivos para os mortos a quem ela em breve se reuniria se mostrou igualmente inútil pois não conseguiu apagar o fato que ela saia da vida sem ter realmente vivido um único dia que fosse.

Indo nesse caminho de aprender que remoer rancores e dissabores nunca nos leva a lugar algum, penso eu que é igualmente inútil tentar angariar amores de pessoas que ou não nos merecem ou não são capazes de nos dá-lo. 

É algo que eu e todo mundo faz. Por na própria conta todos os erros alheios como se fossem seus.